Imunidade cruzada pode explicar queda do coronavírus em Manaus
“A capital do Amazonas tem números em queda, apesar do baixo isolamento social da população”
O epidemiologista Pedro Hallal, reitor da UFPel e coordenador da pesquisa, avalia que Manaus, São Paulo e Recife, todas com altas taxas de contaminação, podem ser beneficiadas com a queda de casos por causa da imunidade cruzada.
São pessoas que tiveram exposição a outros coronavírus no passado e não pegaram a atual versão.
“Se isso se confirmar, será uma notícia espetacular, porque uma parcela das pessoas teria imunidade porque pegou covid-19 e outra parcela teria imunidade porque já teve exposição a outros coronavírus”, disse Pedro Hallal à BBC Brasil.
“Seria mais possível chegar perto da imunidade de rebanho. Mas isso ainda é muito incipiente. A gente precisa esperar um pouco mais para saber se a teoria da imunidade cruzada se confirma ou não”, completou.
Segundo ele, estão sendo feitos estudos específicos nas cidades onde teve essa diminuição para entender se é isso que aconteceu, ou seja, imunidade cruzada.
“Há uma explicação burocrática e a outra, desafiadora cientificamente. A burocrática é que foi uma flutuação amostral, porque várias destas quedas estão dentro da margem de erro do estudo. Mas tem algumas que ficam muito evidentes. Chamam especialmente a atenção as quedas nas cidades em que a taxa estava muito alta”, avaliou.
Para ele, isso pode ser por causa da imunidade cruzada ou do tempo que a imunidade dura no organismo, sendo a hipótese mais interessante.
Queda de casos em Manaus
Hallal explicou que a queda brusca da epidemia em Manaus é questão a ser analisada porque não fez “lockdown”.
“Mas, precisamos entender isso com o devido cuidado. Em Manaus, o vírus chegou muito cedo através do vínculo da zona franca com a China. E as epidemias costumam ter um limite temporal, que é normalmente de cerca de treze semanas. Essa é uma possibilidade”.
Para ele, outra evidência é que o vírus circulou e esgotou sua capacidade de infectar. “Mas, uma terceira explicação possível, da qual tenho dúvidas, é que seria por causa da imunidade cruzada. A resposta está entre essas três possibilidades”.
Questionado se o caso de Manaus pode indicar que o percentual de infecção necessário para atingir a imunidade de rebanho é menor, o pesquisador diz que há essa possibilidade.
“Porque Manaus não fez uma quarentena rigorosa o suficiente para ter essa queda. Então, pode ser que, seja por causa do passar do tempo ou pela quantidade de suscetíveis, o patamar necessário para a imunidade de rebanho tenha sido atingido em Manaus”..
Hipótese já considerada
Esse conceito de imunidade cruzada foi tratado informalmente em junho pela presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Rosemary Pinto Costa.
Mas a discussão não foi levada adiante.
Por Iram Alfaia
Foto: BNC Amazonas
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